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20/12/2007 - 13h39

"Ladrões levaram dois tesouros. É uma catástrofe"; professor de história da arte prevê impacto negativo em exposições no Brasil

Irineu Machado
da Redação
O furto de obras da importância de "O Lavrador de Café", de Candido Portinari, e "Retrato de Suzanne Bloch", de Pablo Picasso, do Masp (Museu de Arte de São Paulo), tem peso sem igual na história dos museus do Brasil e deve respingar em outras instituições de arte do país. Quem afirma é o professor de história da arte da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Nelson Aguilar, 62.

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"São obras de valor incalculável. Os ladrões levaram dois tesouros. Isso passa a imagem de incúria. Agora, museus internacionais vão negar o empréstimo de obras a instituições brasileiras. É uma catástrofe", disse Aguilar, que afirmou que o fato culmina, em sua avaliação, a fase de declínio em que a administração do Masp entrou. Aguilar foi curador-geral da 22ª e da 23ª Bienal de São Paulo (em 1994 e em 1996, respectivamente) e da quarta Bienal do Mercosul (em 2003).

A importância dos quadros


"Retrato de Suzanne Bloch", óleo sobre tela em 65 x 54 cm
Pintado por Pablo Picasso em 1904


Segundo Aguilar, o quadro tem importância central, "essencial" na produção de Picasso. "É um quadro chave da fase azul (1901 a 1905, período em que Picasso abordou em seu trabalho sentimentos de tristeza, infelicidade e alienação). É um quadro cubista. Se eu tiver que escolher 200 obras dentro de toda a imensa produção de Picasso, essa seria uma delas. Seu valor é incalculável."


"O Lavrador de Café", óleo sobre tela em 100 x 81 cm
Pintado por Candido Portinari em 1939


"Essa obra tem a mesma importância que a de Picasso, só que dentro da história da arte brasileira. Ela foi produzida na década de 30, na fase mais importante da produção do artista. Entrou no domínio institucional, a imagem foi até usada em cédula... é um tesouro."

Veja o que dizem outros especialistas sobre a importância das duas obras.

"Empresários deveriam assumir o museu"
Para Aguilar, o Masp atravessa uma fase de declínio e o furto das obras ocorrido nesta quinta-feira "é o sinal mais inegável disso". Perguntado se o museu é frágil em segurança ou se sofre com falta de funcionários, o professor disse: "Avaliar o que está fazendo falta, seria irresponsável de minha parte. Mas, em qualquer instituição onde um episódio como esse acontece, no mínimo, é uma demonstração de incompetência. Isso é a conseqüência de um longo caminho errado que o Masp vem fazendo ao longo dos anos. Se fosse no Japão, quem dirige o museu praticaria harakiri."

O professor vê problemas de administração não só no Masp, mas "em geral na arte brasileira". "É um problema geral. Não vai haver bienal, por exemplo, esse é o caso mais eloqüente (sobre o cancelamento da mostra internacional da 28ª Bienal de São Paulo e sua conversão em palco de debates). É um sintoma nem de doença, mas da pós-morte. O setor privado deveria tomar para si a administração do museu. Não existem empresários de ponta que tomem a iniciativa de tomar conta do museu. Falta um empresário como Antonio Ermírio de Morais, capaz de fazer mais do que arremedos. O que há hoje são pessoas mais interessadas em aparecer do que perdurar. Mas o empresariado no Brasil é aquela coisa muito pragmática, não tem consciência...", declarou.

"Que presente de Natal o Masp deu para a cidade... A sociedade devia ganhar agora o presente de mudar toda a direção do Masp e entregar à iniciativa privada", disse.

"Prêmio Nobel da Roubalheira"
Aguilar disse que nunca ouviu de um furto de obra de arte dessa importância "na era eletrônica".

"Isso já aconteceu no Louvre [em Paris], mas nada dessa importância. Até a Mona Lisa [o quadro de Leonardo Da Vinci foi furtado em agosto de 1911 e reencontrado dois anos depois], mas era diferente. Na era eletrônica, nunca aconteceu um roubo desse vulto. É um escândalo que vai respingar nas muitas instituições de arte do Brasil. Eu lamento nem pelo Masp, mas pelas exposições que estão acontecendo no Brasil. Passa a imagem de que não se tem cuidado. Isso respinga até nos outros museus e instituições que funcionam bem, o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo), o Instituto Tomie Ohtake. Fica a imagem de incúria."

"Houve o roubo do Matisse no Museu da Chácara do Céu [no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2006, quando foram levadas por ladrões as obras "Os Dois Balcões", de Salvador Dalí, "A Dança", de Picasso, "Marine", de Monet, e "Jardim de Luxemburgo", de Matisse], mas nada dessa envergadura. Os autores merecem o Prêmio Nobel da Roubalheira, eles conseguiram detectar um momento de fragilidade no museu. Entrar numa instituição como o Masp, na avenida Paulista, não dá para entender. Em qualquer outro lugar do mundo, haveria mudanças. Aqui, não vai acontecer nada. O trabalho que Chateaubriand [Assis Chateaubriand, jornalista e empreendedor que idealizou a fundação do museu na década de 40] fez está sendo abandonado."

Segundo Aguilar, o destino de obras famosas roubadas, em geral, são colecionadores particulares. "Mas sobre isso se sabe menos ainda. A obra nunca vai adquirir um valor de mercado. Esses colecionadores pagam para tê-la. Com certeza, conhecem o sistema."

Masp "precisa de política mais museóloga", diz historiadora
A historiadora da arte e professora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, Dayse Piccinini, também faz críticas à administração do Masp.

"O Masp precisa ter uma política mais museóloga, porque as pessoas responsáveis pelo museu não têm essa formação", afirmou.

Sobre o crime, a historiadora disse: "O que pode ter acontecido é que nos museus há muitos vigilantes durante o dia, mas à noite, às vezes por falta de verba, a segurança diminui. Eu acredito em falha humana e até em interrelação, de funcionários do museu que passam informação para os criminosos. A questão da segurança e da prevenção de roubo deve ser prioridade número um quando há a proposta de se montar uma coleção."

"Os roubos, na maioria das vezes, são encomendados e financiados por colecionadores que têm um perfil psicológico que os leva o fazer qualquer coisa para ter aquele objeto de desejo. É quase impossível vender essas obras de artes, que são catalogadas e fotografadas. A não ser que o quadro seja levado para fora do exterior e caia nas mãos de pessoas que não conhecem o patrimônio da América Latina."

(colaborou Fabiana Uchinaka, da Redação)

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