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09/03/2006 - 10h13
Ficção policial só vira clássico depois da morte do autor, diz Lawrence Block
HAROLDO CERAVOLO SEREZA
Editor da Home Page do UOL

Divulgação

O escritor Lawrence Block, que estará na Bienal de SP

O escritor Lawrence Block, que estará na Bienal de SP

Lawrence Block é rápido. O autor de "mais de quarenta livros" (é provável que o número já esteja defasado, considerando obras de não-ficção e livros organizados, mas mesmo seus editores desistiram de apresentar uma contabilidade confiável) levou menos de 12 horas para enviar as respostas da dezena de perguntas enviada por e-mail pelo UOL.

"Não sou tão ocupado quanto você imagina", disse. Além de escrever romances policiais de qualidade em profusão, Block, nascido em Buffalo em 1938, trabalha como consultor de programas de TV e é autor de alguns guias para escritores iniciantes.

Block é um dos autores policiais mais premiados da atualidade e cativou muitos leitores brasileiros, o que faz dele uma das principais atrações internacionais da Bienal do Livro de São Paulo. Ele discute com Tony Bellotto questões em torno do romance policial no dia 12, às 15h30, no Salão de Idéias da Bienal.

Logo depois de errar o nome do repórter (escreveu "querido Heraldo" em vez de "Haroldo"), falou sobre a expectativa de conhecer São Paulo, sobre Nova York e sobre sua obra de maior ambição, "Cidade Pequena" (2003), que não tem nenhum de seus personagens habituais e tematiza o 11 de Setembro.

Block também discorreu sobre sua relação com os livros da série do detetive Matt Scudder, o herói (ou anti-herói) de uma série de romances, entre eles "Quando Nosso Boteco Fecha as Portas" (Companhia das Letras), mais recente lançamento no Brasil. A obra tem Scudder como narrador. O detetive passa, em 1985, a rememorar a decadente cidade dos anos 1970, a partir da morte de uma pessoa envolvida num caso de assassinato com que lidara no passado.


Leia abaixo a entrevista com o escritor:

UOL - Você diz, no seu website, ser um viajante incansável. Já veio ao Brasil?

Lawrence Block - Cinco ou seis anos atrás, eu e minha mulher fizemos um cruzeiro pelo rio Amazonas até Manaus. Conheci, então, a cidade e alguns portos do rio. Essa vai ser, no entanto, a minha primeira vez em São Paulo, e estou muito curioso sobre a cidade. Decidi visitar o Brasil porque os editores daí (ele é publicado no Brasil pela Companhia das Letras e pela Nova Fronteira) fizeram um trabalho muito bom na apresentação dos meus livros, formando um grupo de leitores entusiasmados.

UOL - "Quando Nosso Boteco Fecha as Portas" tem como personagem principal o ambivalente Scudder. Ele é seu personagem predileto?

Block -Não estou certo de que tenho um personagem favorito, mas acho que os livros da série de Scudder são, talvez, mais sérios e substanciais que os demais.

UOL - A série de outro personagem, Bernie Rhodenbarr (que inclui livros como "O Ladrão que pintava como Mondrian" e "O Ladrão que Estudava Espinosa"), é muito mais engraçada. E tem ainda outras séries, com personagens completamente diferentes. Como o sr. lida com tantos heróis e tantos personagens?

Block - Eu nunca tive nenhum problema para mantê-los separados em minha cabeça. Talvez eu tenha múltipla personalidade!

UOL - O sr. vive em Nova York, como Scudder. Como a vida numa grande cidade influencia a escrita de romances policiais?

Block - Viver numa cidade como Nova York ajuda porque ela me energiza e porque ela alimenta o meu trabalho. Eu também acabei de editar uma antologia de vários escritores, chamada "Manhattan Noir", com histórias inéditas que se passam na cidade. Parece que Nova York é capaz ela mesma de conduzir para a ficção noir.

UOL - "Cidade Pequena" é, para você, um romance policial ou algo diferente? É seu livro mais ambicioso?

Block - Sim, eu diria que este é meu livro mais ambicioso, literariamente falando. Ele se enquadra na categoria de ficção policial, claro, mas eu tentei também dar conta de toda a cidade.

UOL - Por que escrever um romance sobre o 11 de Setembro? O sr. acha que as obras de ficção publicadas após o ataque ajudaram os novaiorquinos a lidar com a tragédia?

Block - "Cidade Pequena" pode ter me ajudado a lidar com a tragédia. Não posso dizer o mesmo para mais ninguém. Na verdade, acho que é perigoso para os escritores superestimar o efeito do próprio trabalho. Se algumas pessoas lerem meus livros e, com isso, tiverem algum prazer, para mim já é suficiente.

UOL - Como o sr. avalia a política externa de Bush?

Block - Eu lembraria a tirada de Chou En-lai (líder político chinês cuja atuação foi da Segunda Guerra Mundial aos anos 1970) quando questionado se a Revolução Francesa de 1789 havia sido boa ou má para o mundo e ele respondeu: "ainda é cedo para dizer".

UOL - O sr. escreveu alguns "livros técnicos" para escritores iniciantes, como um "Guia para Autores de Ficção". Depois de publicá-los, passou a escrever melhor ou, pelo menos, mais rápido?

Block - Escrevi muitos livros para escritores, e a receptividade foi muito favorável. Não sei se são realmente úteis. As pessoas respondem de forma diferente em cursos do gênero. Alguns tiram muito proveito deles, outros, nem tanto.

UOL - Autores policiais, com freqüência, são descobertos primeiro pelos leitores, e só depois pelos críticos. Penso em nomes como Simenon, Rex Stout e mesmo Agatha Christie, mas a lista é bem maior. Estou certo?

Block - Provavelmente. A melhor ficção policial é muito acessível para seus leitores, e os críticos tendem a desprezar tudo aquilo que é acessível - até que o autor esteja seguramente morto, quando chega o tempo para os críticos sentirem-se livres para tomá-los como "clássicos".

UOL - Uma pergunta muito pessoal. Não sou um leitor típico de livros policiais, mas viciei-me neles depois do nascimento de minha filha e de meu filho. Foi quando comecei (2002) e recomecei (2005) a ler seus livros. Você tem uma teoria para o meu caso?

Block - Talvez seu gosto tenha simplesmente melhorado e se desenvolvido com o tempo! Leia também|Bienal une sagrado, clássico, pop e trash|http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2006/bienaldolivro/ target=_blank|Para editoras, Bienal é mais vitrine que balcão|http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0903200606.htm target=_blank|Blogueiros do UOL participam de espaço literário|http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/03/09/ult100u4394.jhtm target=_blank

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