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13/09/2006 - 19h26
Companhia francesa de dança desmascara inspiração e mostra fragmentação da vida moderna
GEISA AGRICIO
da Redação


Divulgação

Cena da coreografia Outrenoir

Cena da coreografia Outrenoir

A companhia francesa de dança Système Castafiore apresenta o espetáculo "Phi Programe", em São Paulo, quarta (13) e quinta (14), fechando o ciclo de quatro apresentações no Estado, único visitado pela temporada no Brasil. Criado em 1982 pela brasileira Márcia Barcellos, radicada na França há 29 anos, o grupo não se apresentava no país há oito anos.

A produção traz uma colagem de fragmentos, em quadros desconexos, em remissão à complexidade da vida contemporânea. A peça é uma compilação de três coreografias distintas, "Outrenoir", "Shift-H" e "Nagy Fal", supostamente inspiradas na obra do "dramaturgo húngaro" Emil Prokop.

"Hei que fazer uma confissão: o Prokop é uma criação nossa. Acabamos enganando a imprensa inteira. Ele é nossa alegoria, dizemos que só encontramos anotações em fragmentos de sua obra misteriosa, e por isso construímos um espetáculo de peças que não estão conectadas por uma narrativa", conta, aos risos, a coreógrafa Márcia Barcellos.

Revelado o segredo, Barcellos conta as reais referências do "Phi Programe", que estreou na França em 2004. "O mundo atual é complexo e contraditório, a humanidade vive imersa em uma infinitude de informações e tudo acaba sendo banalizado. A grande busca é conseguir criar elos entre os tantos fragmentos, a exemplo da internet, cada um criar sua própria viagem, sua ordem própria em meio ao caos. É disso que trata o espetáculo, é uma grande sugestão para que cada um encontre seu caminho para interpretá-lo", conta a autora.

"Outrenoir" (além do negro, em português), segundo a coreógrafa, é ambientado na estética de teatro de Shakespere, com personagens medievais de movimentos intensos. Os bailarinos representam a interdisciplinaridade da companhia, e compõem interpretações teatrais sobre figurinos negros e cenário escuro.

A luz - que acaba interagindo como protagonista sobre a atmosfera obscura - e a música - cantos elisabetanos gravados pelo Ensemble Solisti Vocalis - configuram o ato como uma montagem que para a criadora traz mais intenções sensoriais e estéticas que narrativas.

Em "Shift-H", o negro dá lugar ao branco, e o passado, ao presente. Os figurinos brancos servem como pano de fundo para a projeção de imagens em movimento e fazem a interação dos bailarinos com os efeitos visuais. O trecho é fruto de uma experimentação da Système Castafiore influenciada pelos estudos de arte cinética da escola de Bauhaus. A abordagem contemporânea é reforçada pela trilha eletrônica cantada pela etíope Mesemerete Belete.

Por fim, "A Nagy Fal" trata da sensação de pequenez humana diante do mundo. Partindo da história dos homens que construíram a Muralha da China e não tinham capacidade de enxergar a dimensão de toda a obra, o quadro faz sobretudo experiências espaciais, com inserções de objetos como monólitos móveis e um grande muro.

Apesar do longo hiato de visitas ao Brasil, a coreógrafa, que mora na França desde os 17 anos, diz que gostaria de ser mais assídua em apresentações no país, mas que a política cultural nacional não tem projetos de aproximação entre o público e a produção estrangeira, ou mesmo de estímulo à divulgação dos trabalhos locais.

"Para nós, que somos subsidiados pelo governo francês, não é difícil sair em temporadas, mas é necessário que seja criada uma estrutura no país de destino. Atualmente, é mais fácil ir para África, Índia ou Austrália do que visitar o Brasil", lamenta.

Système Castafiore
» QUANDO - Quarta (13) e Quinta (14), às 21h
» ONDE - Teatro Alfa (R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, São Paulo). Informações: (11)5693-4000.
» QUANTO - R$40 a R$90.

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