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"No Brasil, vi nossas ruínas utópicas", diz o cubano Diango Hernández

Da Redação

Folha Imagem

O artista cubano caminha sobre a obra We are unfinished drawings na montagem da Bienal de SP

O artista cubano caminha sobre a obra We are unfinished drawings na montagem da Bienal de SP

O cubano Diango Hernández, 36, participa de duas bienais ao mesmo tempo. A de São Paulo, com a instalação "We are unfinished drawings" (Nós somos desenhos inacabados) e da 2ª Bienal de Arte Contemporânea de Sevilha (BIACS 2), que reúne 400 obras, de 91 artistas de 30 países, com a obra "Inside the Mouth of the Panther" (Na boca da pantera). A Bienal de Sevilha, que vai até o dia 8 de janeiro de 2007, tem como tema "Lo desacogedor - escenas fantasmas de la sociedad global" (O Desacolhedor, cenas fantasmas da sociedade global).

Hernández, que vive entre Itália e Alemanha, formou-se no Instituto Superior de Design de Havana. Seu trabalho articula desenho, instalações, objetos encontrados, e intervenções sonoras. Em 2006, "Spies", na Galeria Alexander and Bonin, em Nova York, em que explora a iconografia e a retórica da revolução cubana e a tensão das relações entre Cuba e Estados Unidos desde 1960.

Divulgação

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"Inside the Mouth of the Panther", 2006, Bienal de Sevilha

Ainda em Sevilha por conta da Bienal, mas de partida para Cuba, Hernández concedeu entrevista ao UOL, em que fala de sua participação nas duas Bienais e de suas impressões sobre o Brasil. Ao visitar Brasília, Hernández diz ter visto na cidade as ruínas utópicas do sonho latino-americano de futuro.

A seguir, trechos da entrevista:

UOL - Qual é a sua participação na 27ª Bienal Internacional de São Paulo?

Diango Hernández - Minha participação na Bienal é o trabalho "We are unfinished drawings", um desenho em três dimensões que mostra uma faceta que a
gente nunca vê do desenho. É a continuidade da minha pesquisa sobre desenho, e traz o tema da frustração
do desenho, o desenho entendido aqui como plano, o projeto de uma realidade social e política melhor.

UOL - Você esteve na abertura da exposição. O que achou?

Hernández - Penso que a Bienal de São Paulo apresenta uma surpreendente quantidade de trabalhos interessantes e inspiradores. Depois de São Paulo, viajei para Belo Horizonte e Brasília. O Brasil é um país forte, com muitos problemas e contrastes sociais evidentes, mas, apesar disso, numa panorâmica, pude ver a cultura maravilhosa do país. Nos lugares que visitei, vi muitas utopias interrompidas por causa da situação política complexa que se passou não só no Brasil mas em toda a América Latina. Conheci a Pampulha, que é interessante e muito bela. O antigo cassino que é hoje o Museu de Arte Contemporânea é uma jóia, um presente. Brasília também é muito estimulante. Tudo isso representa um sonho latino-americano de futuro que se deteve no tempo e a respeito
do qual não existem mais esforços políticos de continuidade. São nossas ruínas utópicas, que nos recordam do quanto sonhamos.

UOL - Que trabalhos desta Bienal de São Paulo se conectam ao seu?

Hernández - Há muitos, mas, em especial, os trabalhos de Simon Evans. Ele reconstrói com o desenho os mapas de sua realidade, com uma expressão muito íntima, um testemunho que soa e que tem a vontade de redesenhar a realidade de uma maneira muito simples e pessoal. Isso me conecta de maneira fundamental ao seu trabalho.

UOL - O que acha do tema "Como Viver Junto"?

Hernández - Desde o início, quando comecei a trabalhar com a Bienal, com a curadora Lisette Lagnado, fiquei muito interessado no tema e no projeto de transformar a estrutura da Bienal em uma plataforma mais internacional
e flexível para o mundo da arte de hoje. Penso que "Como viver Junto" é mais que um tema da Bienal, e não é apenas uma demanda urgente da arte hoje em dia, mas do mundo em que estamos vivendo.

UOL - Na sua opinião, qual o papel das grandes mostras e Bienais?

Hernández - Depende de quem você é e do que está fazendo no mundo da arte. Para mim, como artista, há lugares onde eu vou para pesquisar,
para apresentar algo em que eu esteja trabalhando mas que não tenha necessariamente finalizado. Por outro lado, todo mundo sabe como são grandes estas mostras e quanta atenção os artistas recebem por causa delas. Mas o que eu gosto nelas é de como nossos trabalhos acabam se conectando com outros e como surgem, dessa enorme quantidade de obras de arte que a Bienal mostra, um novo sentido e uma nova leitura para nossos trabalhos.

UOL - No que está trabalhando agora?

Hernández - Estou agora na Bienal de Sevilha, com a instalação "Inside the mouth of the Panter". É uma reinterpretação de um
pôster político dos anos 60, numa série de 30 desenhos, que apresenta a idéia da propaganda de uma maneira muito pessoal.

UOL - Foi sua primeira vez no Brasil? O que achou?

Hernandez - Sim, foi a primeira vez no Brasil. O que senti? Eu quero viver aí.