
Shimabuku: "Aprendi a me tornar feliz aqui"Da Redação
Shimabuku, 35, nasceu em Kobe, no Japão, e atualmente vive e trabalha em Berlim. Ele foi um dos artistas escolhidos para fazer uma residência artística em São Paulo para desenvolver um trabalho específico para 27ª Bienal. Foi sua segunda visita ao país.
A princípio pesquisou a rota de chegada dos japoneses no Brasil, passando por Santos e cidades do interior de São Paulo. No meio da pesquisa, deparou-se com cantores repentistas no centro de São Paulo e ficou encantado com a possibilidade de eles realizarem uma trilha sonora para um dos seus vídeos. Nesta entrevista, feita nos últimos dias de permanência no país, Shimabuku faz um balanço de sua experiência, fala de suas impressões sobre a 27ª Bienal e diz o que aprendeu com os brasileiros. O artista recebeu a equipe do UOL no seu apartamento no edifício Lutecia, localizado no centro de São Paulo e que foi reformado para receber os artistas convidados da Bienal.vídeos, fotos, e, especialmente, gente. PRIMEIRA VEZ NO BRASIL Eu vim para o Brasil, em 1999, para um projeto do Grupo Capacete, no Rio de Janeiro. Mas, naquele tempo, eu fiquei no Brasil, eu queria fazer um novo trabalho aqui. Eu não queria levar algo como souvenir. Eu não queria somente levar alguma coisa que eu tinha feito. Eu fiquei tão surpreso, as pessoas pareciam tão felizes, as pessoas sabiam como se tornar felizes, certo? E então eu pensei que talvez eu não soubesse fazer coisa nenhuma e então eu não fiz nada. Talvez esta tenha sido a minha performance. Eu não fiz nada. Eu simplesmente aprendi como me tornar feliz com o povo brasileiro, foi esta talvez a minha performance. RESIDÊNCIA Desta vez, um projeto que eu fiz foi que eu desejava viajar com pequenas pedras, pedras que eu peguei em Santos. Eu sou japonês e você sabe que a maioria dos japoneses chegaram por Santos e então eles começaram a viajar. Então eu queria viajar, eu queria seguir estas viagens de imigrantes com essas pequenas pedras e eu também queria emigrar essas pequenas pedras para outras partes do Brasil. Foi como acompanhar uma viagem, foi sobre as antigas viagens dos imigrantes. Eu sou japonês e eu comecei a fazer uma pesquisa sobre os imigrantes japoneses, mas eu acredito que todo o povo brasileiro veio de fora. Muitas pessoas chegaram em Santos, não só os japoneses, mas também italianos, alemães. Talvez eu quisesse saber sobre a história desse país. Eu queria ter uma experiência disso. Então por isso eu desejava viajar com essas pedras. Para mim com certeza foi um pouco nostálgico. O que me interessava era os nisseis daqui. Apenas para guardar alguma coisa do povo japonês no Japão, pois o Japão esqueceu-se disso. Você sabe as boas atitudes antigas, o jeito antigo de falar, a antiga mentalidade, pois o povo japonês no Japão nos dias de hoje, é um povo altamente poderoso. Mas aqui não, lembro da minha avó quando eu era mais novo. Então foi uma experiência muito interessante. RESULTADO DA RESIDÊNCIA O trabalho que eu fiz foi um trabalho com repentistas. Nesta Bienal nós fomos convidados a mostrar dois trabalhos, um novo e um velho. Então para apresentar meu trabalho antigo que foi um vídeo sobre viajar com um polvo da minha cidade natal até Tóquio, pescado na Itália, com potes de cerâmica feitos por mim. Para mostrar este trabalho eu pensei que eu tinha que fazer uma transferência. Então quando eu estive aqui eu encontrei esses repentistas e eu fiquei totalmente impressionado e também eu não entendia nada de português. Eu olhava para o público e eles pareciam muito felizes. Eu não entendia, mas eu entendi algo. Então eu decidi convidá-los a traduzir meu trabalho na língua deles, como um trabalho de remixagem musical. Eu mostrei o meu vídeo para eles, nós também não falamos muito, mas eles entenderam o que eu estava fazendo e então começaram a cantar sobre mim. Quer dizer, eles não acreditavam que eu era um artista e eles ficavam dizendo pescador, pescador. Esse encontro com os repentistas, eu só pude vê-los porque eu estava aqui, quer dizer, eu os encontrei há apenas dois quarteirões daqui, então eu negociei isso na rua e nós filmamos na rua. Apenas há dois quarteirões daqui, no Anhangabaú. Foi tudo feito aqui, no centro. Eu encontrei a semente, a semente cresceu aqui, eu vi a flor aqui, algo assim. Eu estou muito feliz com isso e também eu editei o vídeo aqui. Filmei, editei, a trilha foi feita aqui, tudo foi feito aqui. Outra razão pela qual eu queria trabalhar com eles, é que algumas das outras exposições têm uma espécie de limitação. O Brasil tem vários tipos de pessoas, de pele escura, de pele branca, de pele amarela, de gente pobre a gente rica. Mas, se você visita os lugares de exibição ou museus, você não vê tantas pessoas diferentes, pessoas de cor, você vê tipos muito limitados de pessoas. Eu queria mostrar as pessoas que eu encontrei aqui para a Bienal. Então eu estou muito feliz de levar a imagem dos repentistas para a exposição. Agora eles podem visitar a Bienal, certo? REPENTISTAS Eu somente tinha essas pessoas. Eu quero me comunicar com elas. A fala dos repentistas está nas legendas porque, talvez isto é um pensamento, no Brasil existem algumas pessoas que não sabem ler e algumas que não sabem escrever e mesmo os repentistas me disseram que não podiam ler, nem escrever. Mas agora eu fiz a tradução com um cantor e mais pessoas podem entender e eu estou muito feliz com isso. Para mim eu fiquei surpreso quando eu encontrei com as pessoas que não podem escrever, que não podem ler, mas eu fiquei totalmente espantado porque quando eu andava com os repentistas, eles não traziam nenhuma anotação, nunca liam nada, somente olhavam e escutavam e então lembravam tudo. São como gênios. OK, eles diziam, agora eu entendi e posso tocar. Eles não praticavam. Foi uma experiência muito especial para mim. 27ª BIENAL Esta Bienal tem muitos tipos diferentes de trabalhos, então eu acho que nós estamos fazendo uma boa harmonia. Mas particularmente com a pintura de Hélio Melo, eu sinto uma simpatia. Ele é um tipo de contador de histórias, foi uma experiência particular dele, uma experiência pessoal dele. É como uma fantasia, mas não é uma fantasia talvez, é vida de verdade que parece uma fantasia e a minha vida é assim também. Parece uma fantasia, mas não é uma fantasia, isso é uma coisa importante. Eu pude ver uma grande variedade de coisas, o que é muito bom. Não é só um estereótipo de coisas ou um estereótipo de arte contemporânea. De repentistas ao Acre. Então eu penso que é muito bom. Também dos artistas jovens até os artistas da velha geração. Eu tive a chance de dizer "oi" para o Dan Graham, ver os trabalhos do Gordon Matta-Clark, da Ana Mendieta, do Marcel Broodthaers, até artistas muito novos. Então isso é muito interessante para mim. Também pessoas de vários diferentes países, África, Ásia, Europa. Outra coisa que me deixou muito feliz é que esse tipo de exposição, eu pensei que iam querer de mim um projeto grande, porque no mundo de hoje, mesmo na arte, as pessoas querem fazer algo grande. Você sabe, você tem sucesso com seu restaurante, OK, então seu próximo restaurante vai ser maior. Este é o modo normal de pensar, mas eu não gosto desta idéia. Mas nesta Bienal nós não vemos esse resultado. Claro que existem trabalhos grandes, não é somente sobre os trabalhos grandes. Não é uma competição entre trabalhos grandes e trabalhos grandes, ou então diversão e diversão, ou tentar surpreender e surpreender. Não é superficial, muitos dos trabalhos são baseados na vida diária, muito particular e isso eu respeito muito. É muito diferente da minha vida, a do Hélio Melo era diferente, a vida do Dan Graham é muito diferente, mas eles estão fazendo algo baseado na vida deles e então eu respeito muito isso. LEMBRANÇA DO BRASIL O que eu mais aprendi sobre o Brasil foi como se tornar feliz. Eu penso que o povo brasileiro sabe como ser feliz sem estar gastando dinheiro, então isso é muito importante. Em alguns países as pessoas têm dinheiro, elas gastam dinheiro, mas ainda não são felizes. Mas aqui nesse país tendo futebol, música, o povo fica feliz. O povo pode ficar feliz. Isto é muito importante. |
Mais depoimentos- Bienal fez "desinfecção" do nome para exibir Daspu, critica Maria Galindo - Coletivo Eloísa Cartonera quer deixar projeto no Brasil - Gilda Mantilla e Raimond Chaves desenham Brasil pela margem - Baraya fala sobre seu herbário e impressões da Bienal - Mario Navarro revela fraturas históricas da AL através de tecnologias datadas - "No Brasil, vi nossas ruínas utópicas", diz o cubano Diango Hernández - Héctor Zamora: "É possível escapar de todas as regras que implicam no jogo da arte" - Shimabuku: "Aprendi a me tornar feliz aqui" - Seminários descentralizam debate sobre arte, diz diretor do CCSP - Premiado na 1ª Bienal, Caciporé Torres fala da experiência - Leda Catunda: "O sucesso dos anos 80 foi uma coisa muito precoce" - "A Bienal de 1969 quebrou a moldura da arte", diz Tom Zé - "Tradição e Ruptura" foi 1ª mostra de design brasileiro, diz Mindlin - Claudia Andujar conta experiência com os ianomâmis - Para Sheila Leirner, as bienais marcam memória sensível coletiva |
![]() |