
Seminários descentralizam debate sobre arte, diz diretor do CCSPDa Redação
Com um seminário sobre o Acre, que contará com a presença de José Carlos Meirelles (Rio Branco, Brasil), David Harvey (Nova York, Estados Unidos), Francisco Foot Hardman (São Paulo, Brasil), Thierry de Duve (Paris, França), Jimmie Durham (Roma, Itália) e Manuela Carneiro da Cunha (Chicago, Estados Unidos), nos dias 10 e 11 de novembro, a 27ª Bienal Internacional de São Paulo encerra seu programa de seminários, que se estendeu pelo ano todo.
Para o diretor do Centro Cultural São Paulo, Martin Grossmann, os seminários realizados pela Bienal de São Paulo proporcionaram a ampliação e descentralização dos debates sobre arte. Grossmann é também o coordenador do Fórum Permanente: Museus de Arte, entre o público e o privado, organização parceira da Bienal na produção dos seminários. Professor titular em Ação e Mediação Cultural da Escola de Comunicações e Artes da USP, foi vice-Diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP (1998-2002), Coordenador Acadêmico do primeiro portal da USP na Internet, o USPonline (1995-1998) e coordenador e membro fundador do museu do (in)conseqüente coletivo (1996-2002). Leia, a seguir, entrevista com Martin Grossman UOL - Qual a relação entre o Fórum Permanente e os seminários da Bienal? Martin Grossman - Trata-se de uma parceria articulada há exatamente um ano, quando um grupo de curadores brasileiros viajava pela Alemanha a convite do Goethe Institut e do Fórum Permanente. Nessa ocasião, Lisette Lagnado, Joachim Bernauer (diretor cultural do Goethe Institut) e eu iniciamos as conversas, mas o formato final só foi selado no início de janeiro desse ano, quando ficou decidido que o Fórum Permanente faria uma cobertura especializada e customizada dos seminários organizados pela equipe curatorial da 27ª Bienal, nos moldes da parceria que realizamos em novembro do ano passado com o Comitê Internacional de Coleções e Museus de Arte Moderna (CIMAM) da Comissão Internacional de Museus (ICOM), quando esse realizou na Pinacoteca do Estado em São Paulo seu encontro mundial anual. Essa cobertura especializada consiste em: a) site de suporte, informação, divulgação e memória: b) webcast (transmissão ao vivo de todos os seminários), cujo registro é depois disponibilizado em vídeo-streaming em nosso site. Essa parte da cobertura é feita graças ao apoio do Centro de Computação Eletrônica da USP. c) edição dos relatos críticos produzidos por uma equipe de jovens escritores de arte (curadores, críticos, teóricos, historiadores, artistas, etc.) d) divulgação dos seminários por meio de newsletters encaminhados ao nosso mailing composto por de mais de 3.500 e-mails nacionais e internacionais UOL - Qual a sua atuação no Fórum Permanente? Martin Grossman - Sou idealizador e coordenador dessa organização flutuante que tem como sede virtual um site na Internet. A minha atuação à frente do Fórum Permanente é uma mescla de curadoria, editoria, interlocução e reflexão crítica, que muitas vezes também emprega artifícios de diplomacia cultural. Trata-se, portanto, de uma mediação especializada visando o desenvolvimento, manutenção e ampliação de uma rede cultural voltada para o debate, divulgação e memória da função da instituição no sistema da arte, rede essa compartilhada por instituições culturais, seus dirigentes, corpo técnico e demais sujeitos que direta ou indiretamente conformam esse campo cultural e artístico. Como uma plataforma para a discussão crítica e também uma espécie de museu virtual, o Fórum pretende, portanto, gerar reflexões e ações em torno do papel da instituição de arte em tempos de espetacularização e virtualização da cultura. Este é o objetivo-chave, mas há, no entanto, um objetivo subliminar e formativo: o de contribuir, de forma significativa e mobilizadora, para o amadurecimento do contexto político-cultural das artes visuais em nosso país, por meio do incentivo de intercâmbios culturais, dentro e fora de suas fronteiras nacionais. O "Fórum Permanente: Museus de Arte, entre o público e o privado" existe graças a uma rede de parceiros. Iniciado em outubro de 2003, tendo como base a pesquisa que desenvolvo na USP e contando com o apoio inicial, cúmplice e decisivo do Goethe Institut, seguido pelo British Council, Consulados Gerais da França e da Holanda, Instituto Cervantes, da Vitae e da FAPESP, o Fórum Permanente congrega instituições de arte como a Bienal de São Paulo, a Pinacoteca do Estado, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Centro Cultural de São Paulo, o Centro Maria Antonia da USP, o Museu de Arte Brasileira da FAAP, o Museu Lasar Segall e o Paço das Artes. A ação do Fórum Permanente abrange tanto a organização de encontros críticos com especialistas, quanto o registro em vídeo e textos críticos de eventos importantes realizados por outras instituições tais como os seminários da 27a Bienal de São Paulo e o CIMAM-ICOM (Conselho Internacional de Museus). São mais de 150 especialistas locais e estrangeiros convidados e 80 eventos realizados até hoje. UOL - Como você avalia a recepção do público aos seminários já realizados? Martin Grossman - A recepção tem sido muito boa, claro que formado em sua grande maioria por um público mais especializado, como estudantes de arte, jovens críticos e historiadores, colecionadores, interessados em arte contemporânea. Isso não só está comprovado pelo preenchimento de todas as vagas disponibilizadas pela Bienal em seu auditório no Porão das Artes, como também pela audiência registrada nas estatísticas de nosso site. O que é mais interessante é que a cobertura que o Fórum Permanente tem prestado aos seminários é utilizada por usuários não só espalhados por esse nosso país de proporções continentais como também por internautas na América do Sul e no Hemisfério Norte, principalmente na Argentina, Estados Unidos e países da Comunidade Européia. Temos recebido e-mails agradecendo a possibilidade de acesso aos seminários dessas partes do mundo e também relatos de pessoas e grupos que vem utilizando não só o webcast como também o material disponibilizado pelo site, principalmente em atividades acadêmicas desenvolvidas em universidades estaduais e federais. Há também depoimentos comoventes como o de Jürgen Harten, que participou do primeiro seminário "Marcel 30" e que teve espectadores especiais durante o webcast de sua palestra: sua mulher na Alemanha e sua filha nos Estados Unidos! UOL - Quais os dados de presença e de audiência via web disponíveis? Martin Grossman - Os dados são extraordinários, se levarmos em conta a especificidade dos temas abordados pelo site do Fórum Permanente e em particular pelos seminários da Bienal. Iniciamos o ano com uma média diária de visitantes únicos em torno de 350 pessoas/dia em nosso site. Visitantes únicos são aqueles que entram no site e navegam em pelo menos 7 páginas. Hoje a nossa média diária está beirando os 900 visitantes. Nos dias de transmissão ao vivo atingimos picos de quase 1.500 visitas. Que museu de arte no Brasil tem essa audiência? UOL - O formato adotado é propício ao debate? Martin Grossman - Desde o início sugerimos à equipe organizadora dos seminários da Bienal que propiciassem mais tempo ao debate. Pela nossa experiência, o público está capacitado para isso e espera que um verdadeiro debate seja instaurado nessas ocasiões. No entanto, não foi isso que aconteceu. Os mediadores privilegiaram as falas dos palestrantes e os comentários oriundos da mesa e da curadoria. Para tornar ainda mais difícil o entrosamento com o público, a maioria dos palestrantes tem lido seus textos. Faltam aos seminários uma maior interação e um controle do tempo mais dinâmico. De nossa parte, gostaríamos de ter implementado o serviço de perguntas on-line durante a transmissão ao vivo, mas com o pouco tempo destinado ao debate, isso se tornou inviável. Lisette Lagnado tem sido abordada durante suas viagens pelo Brasil por pessoas que querem participar dos seminários via o nosso site, e até tentamos viabilizar essa correspondência para esse último seminário. Mas a Bienal achou melhor colocar isso em prática somente no último seminário "Acre", que acontece agora em Novembro, devido ao uso intenso do auditório durante o período de abertura da 27ª edição da Bienal de São Paulo. UOL - Quais foram os temas mais polêmicos ou valiosos que surgiram nos seminários? Martin Grossman - Não que seja polêmico, mas um tópico que continua a despertar indagações e muitas especulações, é o da impotência da arte diante das truculências do poder que assistimos hoje como a violência perpetrada em situações de conflito no Oriente Médio, no Iraque e no Afeganistão bem como em seus desdobramentos ao redor do mundo. As tensões e os conflitos deflagrados no cenário geopolítico mundial tem sido temas recorrentes nos seminários, bem como o da crescente espetacularização ou midiatização das relações sociais e culturais. Por outro lado, o tema da 27ª Bienal, "Como Viver Junto", propicia outros debates ou questionamentos como, por exemplo, a viabilidade do estabelecimento de uma ética de coabitação respaldada na procura da justa distância entre indivíduos que pertencem a grupos diferentes, tema da palestra de Catherine David, na conferência "Novos meios de expressão a partir dos filmes de Pedro Costa". Essa consagrada curadora francesa recorreu ao conceito de "distância ativa", de Jacques Rancière, para distinguir, de um lado, os trabalhos artísticos que operam o deslocamento do indivíduo de seu próprio lugar a fim de colocá-lo a certa distância de seu "outro", incitando a convivência, a construção e a partilha de um espaço comum, e, de outro, determinadas obras pseudo-críticas, bem intencionadas porém ingênuas, que terminam por reafirmar o lugar do sujeito, confinando-o sempre em sua própria posição. Nessa mesma chave, Peter Pal Pelbart também provocou a utopia de certas propostas coletivas e de participação social com sua instigante intervenção: "Como viver só". Entre essas e outras, algumas propostas de cunho social no mundo da arte, de intervenção urbana e em regiões desprovidas de apoio cultural, suscitadas durante os seminários, também foram alvo de intenso questionamento, uma vez que se aproximam perigosamente do assistencialismo, deixando de lado o potencial crítico que é inerente as artes. UOL - Na sua opinião, os seminários conseguem "fornecer ao público uma propagação gradual das idéias da Bienal", "traduzindo" a idéia da Bienal, como pretendia a curadoria? Martin Grossman - Lisette sempre foi muito objetiva ao tratar desse assunto. Quando falou de público, foi específica: estava se dirigindo ao público especializado, formador de opinião. Nada a opor, uma vez que esse público privilegiado é de fato um elo entre o coração das idéias que modelam o projeto curatorial com outras dimensões de recepção de uma mostra desse porte. Nenhuma Bienal no mundo tem um público que beira o milhão. O material proveniente dos seminários alimenta não só especialistas e estudantes de arte de todo o Brasil e outros espalhados pelo globo, como também foram utilizados na preparação dos monitores da própria Bienal. Os programas educativos da Bienal têm tradição e atendem demandas plurais. Ou seja, não são os seminários os responsáveis pela tradução, mas outros profissionais que, de diferentes formas, acabam cumprindo esse papel mediador. UOL - Qual sua avaliação dos cinco primeiros seminários e qual sua expectativa em relação ao próximo? Martin Grossman - A avaliação é positiva. Pela primeira vez no Brasil e em específico na Bienal de São Paulo criam-se plataformas para o debate crítico que antecedem o próprio evento. Temos assim um acontecimento que se estende durante um período generoso de tempo e não somente um evento que se limita a dois meses. Adiciona-se a essa situação a parceria entre a Bienal e o Fórum Permanente que proporciona não só a ampliação e descentralização desses debates como também o registro e a memória, permitindo assim que esses assuntos sejam não só tratados no aqui e agora como também e outras situações no futuro. Os seminários certamente ilustram e iluminam o evento em si e isso é louvável. A curadoria acertou em deixar o seminário "Acre" para o final, pois agora temos sim material para debater a inclusão dessa longínqua parte do Brasil no corpo conceitual da proposta curatorial da 27a Bienal. O contato com a obra de Hélio Melo e de artistas que por aquele território passaram são instigantes. |
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