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Guto Lacaz: "Eu não entendia que existia esse mundo das artes plásticas"

da Redação

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Guto Lacaz: 'Aquilo era um mundo à parte', diz artista sobre Bienal (13/07/06)

Guto Lacaz: 'Aquilo era um mundo à parte', diz artista sobre Bienal (13/07/06)

O artista Guto Lacaz, 58, que participou da 18ª Bienal, em 1985, deu um depoimento ao UOL e falou sobre suas memórias afetivas das bienais de São Paulo.

Arquiteto por formação, Lacaz é conhecido por trabalhos que dão um enfoque inusitado a objetos de uso cotidiano, como "Óleo Maria em Busca da Salada", em que uma lata de azeite passeia com rodinhas sobre uma bandeja; o "Crush Fixo", uma garrafa de refrigerante fixa em um bloco de cimento, ou o "Aparelho Para Limpar Escova de Dentes".

O artista plástico e ilustrador participou da 18ª Bienal, em 1985, com a instalação "Eletro-Esfero-Espaço", que utilizava 26 aspiradores de pó que, com a sucção invertida, sustentavam no ar uma fileira de bolas de isopor.

Leia abaixo a íntegra do depoimento:


GUTO LACAZ

Um mundo estranho
A Bienal marcou a minha vida. Eu estava no ginásio e a escola foi visitar a Bienal e eu me lembro de trabalhos muito intrigantes que eu via e que eu não entendia nada. Eu ficava me perguntando "isso é possível?" Me provocou, né?

Mas aquilo era um mundo à parte --não entendia que existia esse mundo das artes plásticas. Aquilo era um evento estranho para mim.

Bienal pop sem mídia
Já na década de 1960, mais tarde um pouco, eu fui já como um observador, para ver, fui sozinho, não com a escola.

Eu me lembro de ter visto a Bienal aonde artistas pop vieram. Andy Wahrol, Claus Oldenburg, Roy Lichtenstein. E essa Bienal me marcou muito, porque eu vi. Eu me lembro que ainda era um evento sem mídia, então a gente conseguia percorrer uma sala sozinho, assim, não tinha alvoroço. Então, eu me lembro de uma Bienal muito boa e silenciosa, onde era você e o espaço, você e a obra.

Isso para mim marcou muito. Então eu vi assim os pop artistas na época em que eles estavam acontecendo.

Sinalizar o que está por vir
Sempre era uma visita fundamental. Eu fui na Bienal e vi 300 obras maravilhosas. Mas eu conseguia de lá de dentro escolher duas ou três que eram marcantes para mim, transformadoras para mim. Ela tinha esse papel de sinalizar algo que estava por vir.

A primeira instalação que eu vi na vida foi numa Bienal. Entrar num espaço e falar nossa, eu estou dentro de uma obra de arte, né?
Era diferente de observar uma escultura, observar um desenho. Eu estava entrando num espaço, que ele inteiro tinha um tratamento, 360 graus, você estava envolvido.

Aquilo era novo para mim, eu nunca tinha penetrado um espaço --e olha que modalidade legal, em artes plásticas agora você pode ocupar um espaço com uma idéia, um conceito.

Então eu acho que foi mais abrindo horizontes vendo muitos artistas que trabalhavam com o que eu trabalho, que eram motores, arte cinética, arte que se movimenta.

Eu vi trabalhos de que eu nem sei o autor --porque tinha que ler a legenda, e às vezes era um autor polonês. Só com muita disciplina que você vai pegar, "deixa eu ver quem que é esse autor" ou procurar mais sobre ele. Mas às vezes você se encanta com um trabalho e aquilo te basta.

Eletroperformances
Eu estava começando a fazer performances que era uma modalidade artística onde você cria cenas com objetos. Eu estava gostando e tinha montado uma chamada "Eletroperformance".

Eram cenas usando aparelhos eletrodomésticos e este espetáculo foi convidado para um ciclo de performances na Funarte, aqui em São Paulo, na Sala Guiomar Novaes. E, na época, a Sheila Lerner, que depois no ano seguinte foi curadora da 18ª Bienal, acabou assistindo a esse espetáculo. Eu mandei esse espetáculo, quando a Bienal abriu inscrições --era uma Bienal na qual você podia inscrever seu trabalho.

Uma amiga minha, acho que foi a Denise Millan, falou, "Guto você sabia que a Bienal está aceitando projetos?"

Aí, eu peguei e levei esse projeto da "Eletroperformance" e a curadora, a Sheila Lerner, me escreveu dizendo que o meu projeto tinha sido aprovado. Então foi essa a única Bienal de que eu participei.

A Bienal é um periscópio
Iberê Camargo, que era um pintor gaúcho, ele contava que a gente no Brasil é como um submarino. Você está sempre meio submerso, né? Aí, de vez em quando, vem sei lá uma exposição do Picasso, uma exposição de um artista que a gente desconheça, da Noruega, e aí sobe o periscópio e dá uma olhadinha e volta.

Então, eu acho que a Bienal é essa subida de periscópio para dar uma olhada. É uma forma de você viajar pelo mundo sem pagar passagem. O mundo vem até você, um fragmento do mundo vem até você. Então é interessante para a gente se alimentar, colocar em debate o que a gente mesmo faz.

Oxigênio para a vida inteira
Eu acho que é um oxigênio que às vezes dura para a vida toda. Às vezes, eu acho que você recebe certas informações que são de tal impacto, que aquilo fica mantendo o seu corpo vibrando, a sua mente vibrando, para sempre.

Têm certos trabalhos que eu vi, que eles sempre voltam. Por que aquele trabalho daquele cara na minha cabeça? Não é que todo dia você pense, mas ele volta na sua cabeça como um: "olha, não esquece daquele trabalho que você viu".

Às vezes eu vejo um livro e falo, "nossa, eu estive diante dessa obra aqui do Andy Wahrol, eu vi essa cadeira elétrica, eu vi esse cheeseburguer, um hambúrguer do Roy Lichtenstein". Em 1960 eu vi isso, né?

Então, é legal, às vezes ela está na sua memória e você vai consultar um site, ou vai ver uma exposição, nossa essa obra voltou para o Brasil, então eu vou lá revê-la. São trabalhos que ficam no coração e na cabeça, como referências.

Os que são bons mesmo não vão te abandonar mais, eles fazem parte já do seu metabolismo.

Feliz acidente - 23 Bienal - 1996
O Sotto, um artista venezuelano que faleceu uns dois anos atrás, que expôs várias vezes aqui no Brasil... Eu o conheci, e ele trabalhava com linha e ilusão de ótica, então ele fez uma esfera só de fios, que foi maravilhosa.

Eu me lembro que eu fiquei namorando e falando como é que ele conseguiu fazer isso. Também nessa mesma Bienal tinham duas esferas: uma do Sotto que era só de linhas e a outra era de um artista inglês (Anish Kapoor), mas ele era indiano, e ele fez uma esfera de metal, mas era uma esfera de dois metros de diâmetro, uma coisa polida, perfeita também, que chegando próximo ela deformava a sua imagem.

Era muito interessante, eram duas esferas, dois artistas que fizeram esferas, só que uma era massa pura, metal assim, pelo menos parecia ser, e a outra era composta só de linhas, você via as pessoas através da esfera. Então foi um acidente feliz essas duas obras estarem na mesma Bienal. Você podia ver dois objetos, ou o mesmo objeto visto por dois artistas.

Tema da Bienal
Toda Bienal não é só décima e tanta Bienal, tem um subtítulo. Esse subtítulo às vezes eu questiono, acho que não precisa isso. Acho que isso mais confunde do que explica. E que também em cima de um subtítulo, embaixo de um subtítulo, pode se abrigar qualquer coisa.

É difícil você dizer o que não entra em "Como viver junto", por exemplo.
Então, às vezes eu acho que esses subtítulos não precisariam existir assim, que isso não tem contribuído. Eu acho isso como observador.

Mas, às vezes, quando o curador é convidado, acho que ele quer extrair uma reflexão pessoal sobre essas obras que ele vai reunir. Mas acho que fica para ele e para um pequeno grupo, acho que isso não é lido por quem vai à Bienal.

É difícil sair de uma Bienal e perguntar "você vai viver melhor agora?", "vai viver junto melhor?", "sabia que se chama 'viver junto' a Bienal?"

Acho que é a maioria vai desconhecer isso, acho que isso vai funcionar para um grupo pequeno.