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Cao Guimarães: "Não conseguir ficar sozinho é a maior solidão"

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O cineasta mineiro Cao Guimarães fala à TV UOL (14/07/06)

O cineasta mineiro Cao Guimarães fala à TV UOL (14/07/06)

O cineasta mineiro Cao Guimarães, 41, terá seu filme mais recente "Andarilho" (2006) exibido pela primeira vez na Quinzena de Realizadores, progração de filmes da 27ª Bienal. O longa, segunda parte de uma trilogia sobre a solidão, conta a história de três homens que não têm residência fixa e passam a vida caminhando.

Guimarães já participou anteriormente da Bienal Internacional de Arte de São Paulo em 2002, em sua 25ª edição. "Eu acho o tema desta Bienal bastante interessante, essa coisa de 'como viver junto', que encaixa como contraponto da 'Trilogia da Solidão'", contou o cineasta em depoimento ao UOL.

Formado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Guimarães tem mestrado em fotografia na Westminster University, de Londres. Seus trabalhos em cinema e artes plásticas já foram exibidos em museus como Guggenhein, em Nova York, e Mori, em Tóquio, além de em mostras como a Bienal de São Paulo e a Insite Biennial, em San Diego. Desde o final dos anos 90, o cineasta tem-se dedicado a documentários como "O Fim do Sem Fim", "A Alma do Osso" e "Da Janela do Meu Quarto", premiado no festival de cinema de Toulouse, França.

Leia abaixo o depoimento de Cao Guimarães:


Andarilho
É a segunda vez que eu participo da Bienal. Essa da Lisette Lagnado, eu acho o tema dela bastante interessante, essa coisa de "como viver junto", que encaixa como contraponto da "Trilogia da Solidão", por isso ela me convidou.

Esse filme novo, que se chama por enquanto "Com os Pés um Pouco Fora do Chão" (nota do editor: o filme acabou se chamando "Andarilho"), que vai estrear, que vai abrir a Bienal agora, é um longa-metragem também em cima dessa idéia da solidão, mas uma solidão em constante deslocamento.

Eu fiz sobre andarilhos, andarilhos de estrada. É uma solidão que move, são seres, pessoas que estão na estrada há anos e é um filme justamente de outro encontro, porque eles se encontram, os andarilhos se cruzam entre si.

É um filme de três personagens, ele tem essa coisa dos personagens em constante deslocamento e cada personagem é complementar ao outro.
São universos muito pessoais, são loucuras em movimento bastante interessantes.

Cada um é bastante diferente do outro e complementar. A gente escolheu os personagens no norte de Minas, numa estrada lá entre Salinas, que é a terra da cachaça, Montes Claros e Pedra Azul, naquela região.
A gente ficou lá um tempo e escolhemos três personagens bem interessantes: um gaúcho, um mineiro e um baiano.

Um deles faz o mesmo trajeto à vida inteira. O outro está há 25 anos dando a volta pela América Latina. E, o outro, mais consciente, carrega uma casa, como um caramujo, pelo mundo afora, assim, e tem uma consciência maior do ser andarilho.

Esse filme é um projeto que faz parte muito da minha pessoa, porque eu sou um caminhante, adoro caminhar, além de viajar muito pelo mundo, sempre estou caminhando nas cidades e sempre fiquei curioso para saber como é a vida dessas pessoas que passam a vida realmente caminhando.

Porque eu caminho uma hora por dia, uma hora e meia, agora quem passa dez, doze, quinze horas caminhando o tempo inteiro e não tem endereço certo, não tem casa própria, nada... É muito interessante esse universo.

Eu estava muito interessado no fluxo do pensamento dessas pessoas e o filme trata um pouco disso. É claro que isso era a minha teoria de quando eu fui fazer o filme. Quando eu cheguei lá, era uma outra coisa, e o filme é bastante interessante nesta questão. São seres solitários entre aspas, mas com a possibilidade do encontro um com o outro.

O lago e a realidade
Eu inventei uma metáfora, eu criei uma imagem para falar de três formas de como se relacionar com a realidade, que caracterizam o meu trabalho.
Digamos, por exemplo, que a realidade fosse um lago, a superfície de um lago. Existem três formas de você se colocar diante dessa realidade ou da superfície deste lago.

A primeira: você fica sentado no barranco contemplando esse lago, contemplando essa realidade. E, daí, alguns trabalhos mais contemplativos, em que a realidade é filtrada através do olhar, ela é um exercício puro de contemplação, em que você tenta deixar este fluxo da realidade ser absorvido pelo seu olhar. É uma coisa muito pessoal e muito particular, é um exercício de anos.

Uma segunda forma seria uma em que você atira uma pedra nesse lago e essa pedra reverberaria a água, esse espelho de água, essa realidade. Ela desorganizaria, digamos assim, esse lago, essa ordem, essa aparente harmonia e essa pedra seria um conceito ou uma proposição.

É uma forma de desorganizar a vida dessas pessoas. Você lança uma pedra, você lança um conceito e pede para que elas vivam na casa de um outro que elas não conhecem, ou seja, isso é uma proposição, uma forma de se relacionar com a realidade.

E uma terceira forma seria você se lançar dentro desse lago. Você lançar o seu corpo nesse lago, ou seja, são trabalhos mais imersivos, que são os filmes com maior duração, onde tem um assunto ou um personagem. O filme "Alma do Osso" tem um eremita, e tem uma relação de imersão com essa realidade, você fica ali convivendo com o eremita, durante dias e dias.

É uma terceira forma, digamos, só para completar essa idéia do que é a minha matéria prima, que é a realidade, e três formas (de lidar com ela). Claro que elas se mesclam, às vezes, em alguns trabalhos, mas é mais ou menos só para eu dar uma idéia de como eu trabalho a realidade.

Trilogia da Solidão
Eu cheguei numa cidadezinha do interior de Minas, Conceição do Mato Dentro, e vi um personagem maravilhoso, um senhor, um velho com uma barba grande, que estava cruzando a rua, e perguntei para o cara do bar quem era essa pessoa. Ele disse que ele morava numa gruta e fazia carvão vegetal, que vinha à cidade, de quando em vez, para vender esse carvão vegetal.

Eu fiquei curioso com ele e fui um dia com o técnico de som, o Canarinho, que sempre trabalha comigo. Subimos a montanha até a gruta e chegamos lá, e ele não estava porque ele tinha ficado na casa da irmã essa noite, e fiquei dentro dessa gruta umas quatro horas imaginando como era morar ali dentro, viver naquela gruta com os pássaros, com o mato, isolado, e me deu a idéia de fazer um filme sobre eremitas.

Como eu estava fazendo um outro filme, eu deixei para escrever esse projeto depois, mas a idéia surgiu ai, nasceu desse personagem. E quando a gente voltou depois, quando eu fui filmar realmente o eremita, ele já tinha morrido.

Quando eu comecei a filmar o projeto sobre eremitas, realmente eu achei que estava ficando doido, porque eremita não está a fim de ser descoberto --na minha cabeça era isso. Foi quando eu descobri o Dominguinhos da Pedra, que é um eremita entre aspas, que vive isolado numa caverna, por isso podemos chamá-lo de um eremita, de um ermitão.

Alguns momentos da minha relação com ele, justamente os pequenos rituais cotidianos dele com a água, quando ele ia fazer o café ou a comida, em alguns momentos ele ficava completamente imerso naquele universo. Podia cair uma bomba do lado que ele nem se mexia.

O cara realmente tinha uma capacidade de concentração prodigiosa, maravilhosa, e eu usei muito desses momentos para construir durante o filme, na edição, um personagem onde o espectador fosse percebendo que aquele cara é quase impenetrável.

Se você vir o filme --o início do filme é muito lento--, você vai ver aquele passar do tempo, que é um outro personagem importante do filme, o passar do tempo, como a água, você sentir o passar do tempo, vivendo ali.

Eu não estava a fim de fazer um filme sobre o Dominguinhos, sobre esse personagem, a história da vida dele, não é isso. Eu queria transmitir um pouco para o espectador a sensação do passar do tempo naquela caverna.
No momento em que ele fala depois de você ver um filme de 50 minutos sobre um personagem que não fala nada, quando ele fala, a fala é muito potencializada.

É um filme de uma construção de um personagem e desconstrução desse personagem. Porque aí você percebe que ele não é tão difícil, tão impenetrável, pelo contrário. No momento em que eu cheguei lá, ele começou a falar e não parou durante cinco dias, até eu começar a entender aquela musicalidade da língua dele que é maravilhosa. E ele contando caso o tempo inteiro, ele é um dos grandes tagarelas que eu já vi na minha vida.

O tanto que ele fala! E, às vezes, histórias ancestrais, primitivas, mitológicas, como a que dá nome ao filme, do Corisco com o raio, a espada (feita) do osso que ele enterrou. São histórias maravilhosas que vêm de gerações e gerações.

E você ficava ali, numa noite de luar, no meio daquela caverna, e ele contando aquelas histórias. Realmente, eu até arrepio, morro de saudades. Virei um amigo dele e ele virou um amigo meu. Tem uma relação afetiva muito grande e uma saudade muito grande dele.

O segundo que eu fiz agora trata justamente de andarilhos, andarilhos de estrada. Uma solidão que move, são seres, pessoas que estão na estrada há anos e é um filme justamente de outro encontro, porque eles se encontram, os andarilhos se cruzam entre eles.

Então esse filme novo, que se chama por enquanto "Com os Pés um Pouco Fora do Chão" (nota do editor: o filme acabou se chamando "Andarilho"), que vai estrear que vai abrir a Bienal agora, é um longa-metragem também em cima dessa idéia da solidão, mas uma solidão em deslocamento.

É um filme de três personagens, ele tem essa coisa dos personagens em constante deslocamento e cada personagem é complementar ao outro.
São universos muito pessoais, são loucuras em movimento bastante interessantes.

Cada um é bastante diferente do outro e complementar. A gente escolheu os poersonagens no norte de Minas, numa estrada lá entre Salinas, que é a terra da cachaça, Montes Claros e Pedra Azul, naquela região.
A gente ficou lá um tempo e escolhemos três personagens bem interessantes: um gaúcho, um mineiro e um baiano.

Um deles faz o mesmo trajeto à vida inteira. O outro está lá há 25 anos dando a volta pela América Latina. E, o outro, mais consciente, carrega uma casa, como um caramujo, pelo mundo afora, assim, e tem uma consciência maior do ser andarilho.

Esse filme é um projeto que faz parte muito da minha pessoa, porque eu sou um caminhante, adoro caminhar, além de viajar muito pelo mundo, sempre estou caminhando nas cidades e sempre fiquei curioso para saber como é a vida dessas pessoas que passam a vida realmente caminhando.

Porque eu caminho uma hora por dia, uma hora e meia, agora quem passa dez, doze, quinze horas caminhando o tempo inteiro e não tem endereço certo, não tem casa própria, nada... É muito interessante esse universo.

Eu estava muito interessado no fluxo do pensamento dessas pessoas e o filme trata um pouco disso. É claro que isso era a minha teoria de quando eu fui fazer o filme. Quando eu cheguei lá, era uma outra coisa.

E a terceira parte dessa trilogia eu vou dirigir com o Marcelo Gomes, que é o homem das multidões. Que é baseado num conto do Edgard Allan Poe, do século 19, que é um personagem que não consegue nunca estar sozinho.

Ele está sempre seguindo pessoas na Londres do século 19, nas ruas da cidade, ele não consegue estar só. Está sempre perto de um aglomerado de gente e ao mesmo tempo ele não consegue se relacionar com esse aglomerado de gente. Sempre fica querendo só o calor de estar ali, o calor humano, não consegue estar só.

Esta é para mim uma das maiores solidões que existe: você não conseguir ficar sozinho.